Álcool – Metabolismo, efeitos do consumo, efeitos do abuso…

Última Atualização: 21/08/2021

Absorção e metabolismo:

O álcool é absorvido rápido no estomago, especialmente quando diluído em água carbonatada (água com gás) e em estômagos vazios. (1) Ele é completamente absorvido pelo organismo e possui uma oxidação rápida, visando proteger a depressão do SNC e lesões. (2,3)

No estudo de Horn, foi visto que o álcool possui maiores efeitos quando consumido no início da tarde, se comparado com início da noite. O consumo de álcool parece ser duas vezes maior quando consumido de tarde. (1)

O álcool é metabolizado de 3 formas no organismo: pela Álcool desidrogenase – ADH, pelo sistema microssômico de oxidação do etanol (MEOS) – p450 (3) e pela Catalase. (2)

Em baixas concentrações, o álcool (CH3CH2OH)  é metabolizado pela álcool desidrogenase – ADH, aumentando a capacidade antioxidante das células através da redução de NAD+ para NADH. Mas com a elevação de  sua concentração  o álcool passa a ser metabolizado pela enzima citocromo p4502E1 (CYP2E1), responsável pela criação de um ambiente oxidativo. (2–5)

O primeiro produto do metabolismo do álcool é o acetaldeído (CH3CHO), metabolizado pela aldeído desidrogenase 2 (ALDH2) que também gera NADH através do NAD+. Sendo posteriormente produzido o acetato (produto final do  metabolismo do álcool), metabolizado no ciclo do acido cítrico. (2–5)

O excesso no consumo faz com que haja o acumulo de  acetaldeído (é hepatotóxico) devido a incapacidade do metabolismo de oxidação, que além de promover danos ainda gera uma “economia” da gordura como fonte de energia, que no longo prazo é responsável pela esteatose hepática e pela dislipidemia (2,4)

Além disso, a MEOS também é responsável pelo metabolismo de diversas substancias, de modo que o consumo prolongado e excessivo pode gerar alterações na resposta a outras substancias, como medicamentos. (4)

Alguns estudos mostraram que pessoas que não ingerem álcool possuem uma maior prevalência de fatores de risco para doenças cardíacas do que aqueles que consomem quantidades moderadas. (6)

É um combustível metabólico de alta energia (7 kcal/g).

Sobre o acetaldeído:

O acetaldeído é o primeiro e o mais toxico metabolito do metabolismo do etanol. (7)

Desempenha um papel central na toxicidade do álcool. Alguns efeitos perceptíveis são: vermelhidão, dores de cabeça e náuseas. (2)

Modifica moléculas biológicas estimulando o sistema imune, podendo causar respostas semelhantes à respostas autoimunes. (2)

Ele pode ser produzido no trato gastrointestinal através da mucosa ou através da “bacterial alcohol dehydrogenase” (7)

Seu acúmulo no lúmen do colón pode ser pela baixa eficiência da “bacterial aldehyde dehydrogenase” em metabolizar o acetaldeído no colón. (7)

Sendo crescente as evidencias de que o acetaldeído é um dos responsáveis pela permeabilidade intestinal ao LPS. (7)

Diferença entre homens e mulheres:

                Homens e mulheres absorvem o álcool de maneiras diferentes, principalmente devido a diferença na composição corporal.

                Mulheres apresentam uma menor quantidade de água no organismo, e geralmente são menores (estatura). Além disso, elas apresentam uma menor atividade da álcool desidrogenase, que leva a um metabolismo mais lento, aumentando as chances de injuria nos órgãos. (6)

                Estudos mostraram que as mulheres apresentam uma maior chance de morte por todas as causas relacionadas ao consumo de álcool, 10% a mais do que homens. (6)

Diferenças étnicas:

                Os efeitos protetivos do álcool consumido em baixas quantidades variam muito entre as diversas populações, sendo que a menor taxa de risco foi encontrado em hispânicos brancos. (6)

Estudos com negros, indianos e chineses não encontraram os mesmos efeitos. (6)

Recomendações nutricionais:

  • O consumo com moderação é definido como: (4)
    • 150 ml de vinho /  350 ml de cerveja  45 ml de bebidas destiladas para mulheres por dia.
    • 300 ml de vinho /  700 ml de cerveja  90 ml de bebidas destiladas para Homens por dia.
  • As guidelines variam muito,não havendo um consenso bem definido em relação as quantidades. (6)
  • Não se deve recomendar o consumo de álcool visando efeitos “benéficos” para a saúde. (6)
  • As bebidas com uma maior concentração de componentes não alcoólicos bioativos são respectivamente: vinho tinto, vinho branco e cerveja. Sendo essas bebidas mais favoráveis a efeitos benéficos. (6)

Recomendações p/ atenuar o efeito do álcool:

  • Probióticos (7)
  • Zinco (7)
  • Aveia (7)

Probióticos:

O uso de probióticos pode ser uma opção viável para atenuar os danos produzidos pela endotoxemia gerada por bactérias gram-negativas através da sua supressão/atenuação. (7)

Aveia:

A suplementação de aveia melhorou a função da barreira intestinal, diminuindo a exposição do organismo ao LPS, porém ainda é necessário estudos para compreender o mecanismo. (7)

Zinco:

Foi visto que a suplementação de zinco conseguiu atenuar o aumento de endotoxinas derivadas do álcool, diminuir os níveis de TNF-α hepático, e diminuir a atividade da alanina aminotransferase. (7) Isso através da melhora da preservação da barreira intestinal e de sua permeabilidade, efeito que já foi visto em pacientes com crohn. (7)

Benefícios encontrados pelo consumo moderado de álcool:

  • Aumento do HDL  pela estimulação da expressão de apolipoproteína A1  e A2, principais componentes do HDL não afetando o colesterol total, o LDL ou triglicerídeos. (5)
  • Diminuição da supressão da síntese de HDL exercida pela insulina.
    • Remoção do colesterol dos macrófagos,
    • Funciona como uma molécula antioxidante e antiinflamatória, principalmente por sequestrar lipídios oxidados nas paredes dos vasos sanguíneos. (5)
  • Diminuição da PCR (marcador comum de inflamação) (5)
  • Melhora da sensibilidade a insulina com menor níveis de insulina e glicose plasmática.  (5)
    • Um elevado nível de insulina pode causar  uma disfunção endotelial, aumentando o níveis de triglicerídeos, LDL e diminuindo os níveis de HDL.
    • O consumo moderado foi associado com o aumento de adiponectina plasmática, conferindo maior sensibilidade a insulina no músculo por diminuir a fosforilação de tirosina no receptor  de insulina. Além de ser um potente vasodilatador. (5)
    • Um consumo moderado de álcool foi associado com uma diminuição na incidência de diabetes tipo 2 comparado com quem bebe muito e com quem não bebe nada. (6)
    • Além disso a proteção contra a hiperglicemia impede a formação de AGES – (produtos finais da glicação avançada) responsáveis por respostas inflamatórias nas paredes dos vasos, que induzem a oxidação do LDL, aumentando sua afinidade com os macrófagos, formando células espumosas.
  • A adiponectina no sangue reduziu a agregação plaquetária e inibiu  a atividade dos macrófagos prevenindo a formação de células espumosas. (5)
  • Ocorre uma diminuição da pressão sanguínea provavelmente devido a maior produção de NO e prostaglandinas, que possuem amplo efeito vasodilatador.
  • Pode ter um efeito antitrombótico  pela inibição da formação de tromboxane A2, um potente ativador da agregação plaquetária.
  • Também é capaz de reduzir os níveis de fibrinogênio, um participante chave na cascata de coagulação. (5)
  • O álcool também é capaz de aumentar a tolerância do miocárdio para o pré-condicionamento isquêmico. (5)
  • O álcool reduz a expressão de NF-Kβ e os níveis de peróxido de hidrogênio, sugerindo  uma redução do estado pro inflamatório e oxidativo do músculo cardíaco.
  • O acetato pode induzir a formação de acido úrico, inibindo dano oxidativo aos lipídios.
  • Mulheres de 55 anos e homens com 45 anos ou mais em risco de doenças cardíacas podem se beneficiar com o consumo moderado de álcool diário. (4)
  • Os polifenóis do vinho tinto (especialmente em vinhos da uva  Pinot Noir) possuem efeitos protetores. (4)

Efeitos na alimentação:

Além das calorias (7 kcal/g), o álcool suprime a oxidação lipídica, aumenta o consumo de comidas não planejadas e pode comprometer os objetivos estéticos. (8)

Estudos mostram que o consumo de bebida alcoólica estão sendo relacionados ao declínio na qualidade total da alimentação.  (2)

Efeitos agudos do álcool:

O excesso do álcool junto com a ingestão deficiente de alimento, pode precipitar a hipoglicemia. (3)

A alta concentração  citoplasmática de NADH impede  a conversão do lactato a piruvato, inibindo a gliconeogênese . (3,4)

Metabolizado no fígado, o etanol em excesso causa o excesso de NADH no organismo, gerando diversos efeitos colaterais: (4)

  • Hiperlacticacidemia
    • Acidose
    • Hiperuricemia
    • Cetonemia
    • Hiperlipemia

Efeitos crônicos do abuso do álcool:

Geralmente os efeitos nocivos do álcool são encontrados após mais de 10 anos de abuso alcoólico. (6)

O consumo excessivo de álcool além de causar prejuízos a saúde, é associado com  o aumento do risco de mais de 50 doenças relacionadas. (6)

A endotoxemia parece desempenhar um papel central na iniciação dos danos  induzidos pelo álcool nos tecidos/órgãos.  A endotoxina é um lipopolissacarídeo (LPS) derivado da parede celular de bactérias gram negativas do intestino. (7)

Estresse oxidativo:

O abuso do álcool é associada ao acumulo de ROS, resultando em estresse oxidativo, inflamação e disfunção celular.

Álcool induz o estresse oxidativo principalmente via aumento da Ang2 / Inflamação, alem do seu metabolismo próprio via CYP2E1.

O álcool e seu metabolito, acetaldeído exercem seus principais efeitos tóxicos a nível mitocondrial, gerando um estresse metabólico na mitocôndria.

  • Aumenta a produção mitocondrial de superoxidos.
    • Diminui o potencial da membrana mitocondrial

Super crescimento bacteriano – aumento do lps:

Foi visto que a incidência do supercrescimento bacteriano em alcoólicos é 3x maior do que em pessoas sem histórico de abuso de álcool. (7) Sugerindo que o abuso do álcool pode ser um fator para seu desenvolvimento. (7)

O excesso de endotoxinas na circulação em resposta à ingestão de álcool pode ser resultado de um excesso na produção intestinal devido ao super crescimento bacteriano de bactérias gram negativas; (7)

Por esse motivo o uso de probióticos pode ser uma opção viável para atenuar os danos produzidos pela endotoxemia gerada por bactérias gram-negativas. (7)

Permeabilidade intestinal:

O excesso de endotoxinas na circulação em resposta à ingestão de álcool pode ser resultado de  um aumento na permeabilidade intestinal (7)

Em ratos foi visto que o consumo crônico de álcool foi capaz de aumentar a permeabilidade da mucosa intestinal sendo capaz de passar inclusive macromoléculas como hemoglobina. (7)

Esse aumento na permeabilidade induzido pelo álcool também foi reportado em humanos, onde foi testado moléculas de diferentes tamanhos. (7)

Foi visto que o álcool sozinho já é capaz de aumentar a permeabilidade intestinal, não sendo uma via dependente de LPS. (7)

Problemas hepáticos:

O excesso no consumo e a utilização de outras vias do metabolismo além da ADH faz com ocorra a lesão hepática pela indução do gene CYP2E1, que é sugerido como contribuinte para o estresse oxidativo através da doação de elétrons para oxigênio, formando O2 ou por catalisar a peroxidação lipídica. (2) Além disso ele é capaz de bioativar agentes hepatotóxicos (ex:  parecetamol). Sem contar o fato de que  alguns macrófagos que expressam em maior quantidade o CYP2E1 podem responder de forma mais agressiva ao contato com o álcool, gerando uma espécie de reação autoimune. (5)

Outra via do problema é devido acumulo de endotoxinas que chegam ao fígado, que são capazes de ativar as células de kupffer, e iniciar um processo inflamatório. (7) Diversas evidencia tem sugerido que a endotoxemia derivada do intestinal tem um papel central na iniciação e na progressão da injuria hepática. (7)

A ligação do LPS nos receptores das células de kupffer no fígado iniciam um cascata de eventos levando a geração de radicais livres, NFK-β, e produção de mediadores inflamatórios como a TNF-α. (7)

Fígados gordurosos são mais sensíveis a hepatotoxicidade como impacto secundário, tal como a endotoxina. (2)

Foi visto que a eliminação/supressão das bactérias gram negativas do intestino atenuou a injuria hepática em ratos. (7)

Problemas cardíacos:

Podem ocorrer problemas cardíacos devido ao aumento da pressão sanguínea, aumento do eixo HPA e aumento do sistema RAAs (Renina angiotensina aldosterona). Geralmente causados por um consumo maior que 90g/dia.

  • Ocorre a liberação de citocinas pro inflamatórias via  NF-Kβ estimulando vias hipertróficas responsáveis pelo remodelamento cardíaco.
    • O aumento da diurese, com consequente queda do plasma, estimula  a liberação de renina. Com isso ocorre a retenção de sódio e água aumentando a pressão intravascular e cardíaca.
    • Ang2 causa efeitos diretos na hipertrofia cardíaca e seu remodelamento. Alem de ser um potente vasoconstritor, induzindo em parte a hipertensão “alcoólica”.
    • O álcool se mostrou um potente vasoconstritor devido ao aumento das concentrações  de cálcio nos músculos lisos, resultando em uma maior contratilidade e maior reatividade.
    • O acumulo de acetaldeído e álcool  age como toxina para os miocitos cardíacos gerando estresse oxidativo, dano mitocondrial, apoptose e aumento do turn over proteico negativo.
    • Formação da fibrose cardíaca que gera uma disfunção contrátil.
    • Já foi mostrado que o uso crônico gera uma diminuição da síntese proteica e um aumento da degradação, resultando em um catabolismo do miocárdio.
      • Ocorre a diminuição da síntese proteica pela redução da  fosforilação da mTor.

Alterações hormonais:

Ocorre uma diminuição da circulação de GH e IGF-1

O álcool também é responsável pela ativação do eixo HPA, resultando no aumento dos níveis de cortisol.

Alterações na pressão sanguínea:

O abuso crônico do álcool é associado com alteração na pressão sistólica principalmente e diastólica.

Dislipidemia:

O uso prolongado e excessivo pode levar à dislipidemia, se apresentando predominantemente pelo aumento dos triacilgliceróis plasmáticos. (3)

As mitocôndrias utilizam o hidrogênio a partir do etanol ao invés da utilização de ácidos graxos, levando uma diminuição  da oxidação de ácidos graxos e ao acumulo de triglicérides. (3)

O excesso de NADH também pode promover  a síntese de acido graxo. (3,4)

Câncer:

O consumo de álcool está relacionado a cânceres como: boca, faringe, laringe, esôfago, pulmão, colón, reto, fígado e mama.  (2)

Desempenho esportivo:

O uso do álcool pós eventos esportivos também gera efeitos negativos, tanto na reposição do glicogênio, como  na hidratação, no qual o álcool age suprimindo o hormônio antidiurético, além de prejudicar também a síntese proteica muscular, que é desejada para adaptação e recuperação. (8)

Catabolismo proteico:

O aumento dos níveis de TNF-α  nos tecidos são os principais responsáveis pela indução da autofagia (processo de auto degradação de proteínas e organelas) que contribuem para o catabolismo.

Referências bibliográficas:

1- Horne JA, Gibbons H. Effects on vigilance performance and sleepiness of alcohol given in the early afternoon (‘post lunch’) vs. Early evening. Ergonomics. 1991;34(1):67–77.

2- Ross AC, Caballero B, Cousins RJ, Tucker KL, Ziegler TR. Nutrição Moderna de Shills na Saúde e na Doença. 11a. São Paulo: Manole; 2016. 1642 p.

3- Dominiczak M. Serie Carne e Osso Metabolismo. 1a. Rio de Janeiro: Elsevier; 2007. 244 p.

4- Mahan LK, Escott-Stump S, Raymond JL. Krause Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 13a. Rio de Janeiro: Elsevier; 2012. 1227 p.

5- Gardner JD, Mouton AJ. Alcohol effects on cardiac function. Compr Physiol. 2015;5(2):791–802.

6- Chiva-blanch G, Badimon L. Benefits and risks of moderate alcohol consumption on cardiovascular disease: Current findings and controversies. Nutrients. 2020;12(1).

7- Purohit V, Bode JC, Bode C, Brenner DA, Choudhry MA, Hamilton F, et al. Alcohol, intestinal bacterial growth, intestinal permeability to endotoxin, and medical consequences: Summary of a symposium. Alcohol. 2008;42(5):349–61.

8- Communications S. Nutrition and Athletic Performance. Med Sci Sports Exerc. 2016;48(3):543–68.