Vitamina D – Absorção, metabolismo, funções, recomendações e suplementação.

Imagem de capsulas de vitamina D

Ultima atualização: 23/03/2021

Fisiologia:

A vitamina D é essencial em funções relacionadas ao metabolismo ósseo, além de estar relacionada com a fisiopatologia de diversas doenças. (1,2)

Conceitualmente, a vitamina D se trata de um pré-hormônio, atuando junto com o paratormônio (PTH), como importantes reguladores da homeostase do cálcio e do metabolismo ósseo. (1)

No organismo, a principal forma circulante  da vitamina e também principal forma de armazenamento no organismo é através do calcidiol – 25(OH)D. (3)

A vit. D pode ser obtida a partir de fontes alimentares, ou por meio da síntese cutânea endógena, que representa a principal fonte dessa vitamina. (1)

A exposição da pele ao sol representa 90% da absorção da vit. no corpo. (4)

A vitamina D é sintetizada na pele, a partir do 7-desidrocolesterol sob exposição à luz solar. (2,5) O 7-desidrocolesterol  (é um intermediário na síntese do colesterol que se acumula na pele) sofre uma reação não enzimática com a exposição à luz ultravioleta-radiação B (UV-B), produzindo a pré-vitamina D  (pré-colecalciferol). (1,2,5)

  • Vit. D2 = Forma pré-ativa (6)

E no decorrer das horas, essa pré-vitamina sofre uma reação adicional dependente de temperatura para formar o colecalciferol. (1,2)

  • Vit. D3 = Forma Ativa (6)

Esse colecalciferol, sintetizado ou pela pele ou obtido a partir dos alimentos sofre duas hidroxilações (no fígado e depois nos rins) para produzir o metabólito ativo 1,25-di-hidroxivitamina D ou calcitriol. (1–3,7) É importante ressaltar que o calcitriol também pode ser formado em menor quantidade em outros tecidos como a mama, próstata, colón e células do sistema imune. (7)

Para desempenhar sua função no organismo, a vitamina precisa ser transformada em seu metabolito ativo 1,25(OH)2D3(1,25 di-hidroxicolecalciferol), também conhecido como calcitriol. (3) Sendo sua meia vida curta (4-6 horas) e sua síntese regulada pelas concentrações séricas de cálcio, fosforo e PTH. (7)

O calcitriol age na grande parte de suas funções como um hormônio esteroide, ligando-se aos receptores nucleares e aumentando a expressão de genes, embora também exerça efeitos rápidos sobre os transportadores de cálcio na mucosa intestinal relacionados a melhor massa óssea e na função da massa muscular. (1,2)

Sua principal função é controlar a homeostasia do cálcio e fósforo, que, por sua vez, o é regulado por fatores que respondem às concentrações plasmáticas de cálcio e de fosfato. (2,3)

O calcitriol exerce esse efeito de três maneiras:

  • Aumentando a absorção intestinal de cálcio. (2,3)
  • Reduzindo a excreção de cálcio através da estimulação da reabsorção nos túbulos renais distais. (2,3)
  • Mobilizando o mineral ósseo. (2,3)

Além disso, o calcitriol está envolvido também na secreção de insulina, na síntese e na secreção do paratormônio e dos hormônios tireoidianos, na inibição da síntese de interleucina pelos linfócitos T ativados e das imunoglobulinas pelos linfócitos B ativados, na diferenciação das células precursoras dos monócitos e na modulação da proliferação celular no cérebro, rins, próstata, mamas, colón, coração, pâncreas, células mononucleares e linfócitos ativados da pele. (2,3)

É sabido que diversos tecidos do corpo humano expressam os receptores da vit. D, sugerindo um  papel fisiológico fundamental dessa vitamina. (8)

Biodisponibilidade e metabolismo:

As formas da vitamina D disponíveis na natureza são o ergocalciferol (Vit. D2) e o colecalciferol (Vit. D3) (1,3)

De forma geral, a vitamina D fornecida por fontes vegetais está na forma de Vit. D2 enquanto aquela fornecida pelas fontes animais está na forma de vit. D3. (1)

A quantidade de gordura ingerida junto a vitamina D3 não parece alterar a biodisponibilidade dessa vitamina de maneira significativa. (3) Entretanto, medicamentos inibidores da absorção de gordura são capazes de diminuir a absorção da vitamina. (3)

Sugere-se que tanto a forma farmacêutica quanto aquelas de alimentos-fontes promovem aumentos semelhantes nas concentrações séricas de 25(OH)D. (3)

Um indivíduo de 70 anos tem sua capacidade de síntese de vit. D3 na pele reduzida em 75% (3)

Algumas doenças podem aumentar a degradação da vitamina D devido ao consumo aumentado de 1,25(OH)2D pelas células inflamatórias, principalmente em condições de artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico e tuberculose. (5)

Exames bioquímicos:

  • Valores < 20 ng/mL = Deficiência (6)
  • Valores entre 20 e 29 = Insuficiência (6)
  • Valores entre 30 e 60 ng/mL (75nmol/L) = Ideal (5–7,9)
  • Toxicidade: 100ng/ml  ( 250nmol/L) (1,3)

Obs: Para a conversão de ng/ml para nmol/L basta multiplicar por 2,5. (1)

1 ng/mL = 2,496nmol/L

OBS: Na vigência de um quadro inflamatório crônico, a concentração sanguínea da Vit. D pode aumentar de modo significativo. (3)

A análise deve ser feita pela 25-hidroxivitamina D (25[OH]D) – Pois essa forma reflete melhor os estoques corpóreos, abrangendo tanto a Vit. D2 como a Vit. D3. (1,3,5,6)

Outro parâmetro utilizado é a concentração de PTH no soro, a qual é inversamente relacionada a de 25(OH)D. (3)

Concentrações superiores a 100ng/mL oferecem risco de toxidade e hipercalcemia. (3)

Até o momento não existe indicação para níveis de vitamina D acima de 60ng/ml em nenhuma situação. (5)

Deficiência:

Fatores como a pele escura, idade avançada, pouca exposição a luz solar, obesidade, síndrome da má absorção e doença inflamatória intestinal  podem contribuir para o aumento do risco para deficiência em vitamina D. (3,7)

A deficiência de Vit. D tem sido associada com o aumento de infecções respiratórias. (4) A vit. D influencia diversos aspectos do sistema imune, particularmente o sistema inato. (4)

A obesidade também parece estar associada a concentrações reduzidas de vitamina D e acredita-se que esta ocorra em razão do sequestro da vitamina pelos adipócitos. (3,7)

A deficiência grave em adultos promove osteomalácia, condição caracterizada pela falha na mineralização da matriz orgânica dos ossos, resultando em ossos fracos e sensíveis à pressão, fraqueza nos músculos proximais e frequências aumentada de fraturas. (1,3)

Em idosos,  a deficiência de Vit. D pode ser responsável  pela menor absorção de Ca e, portanto, tem efeitos importantes no desenvolvimento da osteoporose na pós-menopausa. (3)

Embora a vitamina D seja essencial para o tratamento e a prevenção da osteomalácia no idoso, há poucas evidências de que seja benéfica no tratamento da osteoporose. (2)

Recomendações:

Sugere-se que 15 minutos de exposição solar, 3x na semana seriam suficientes para suprir a necessidade de vitamina D diária. (7)

Foi visto que pouca vitamina é produzida antes das 09:00h e depois das 15:00h. (7)

Fatores como melanina e protetores solares também influenciam na absorção da uvB, diminuindo a eficiência de produção da vitamina. (7)

Recomendações nutricionais:

RDA: 15 mcg/dia ou 600UI (3,10)

UL: 100 mcg/dia ou 4000UI/dia  (3,10)

OBS: 1 mcg = 40 UI

Fontes Alimentares: Salmão selvagem (600UI), salmão de criação (100UI), sardinha em conserva (300UI), cavala em conserva (250UI), atum em conserva (230UI), óleo de fígado de bacalhau (400UI) alimentos derivados do leite, gema de ovo (20UI), margarinas enriquecidas, cogumelos frescos (100UI) e cogumelos secos ao sol (1600UI). (1,3)

De forma geral, vegetais não contém quantidades significativas da vitamina, não sendo então considerados fontes desse nutriente. (7)

Um nível maior de Vit. D confere proteção contra vários tipos de câncer, incluindo câncer de próstata e câncer colorretal, bem como o pré-diabetes e a síndrome metabólica. (2)

Concentrações séricas de 25(OH)D acima de 30ng/ml são desejáveis, especialmente nas populações de maior risco. (1)

Suplementação nutricional:

A forma mais disponível para tratamento e suplementação é o colecalciferol (Vit. D3), sendo este o metabolito que se mostrou mais efetivo.

Como regra geral pode se dizer que para cada 100UI suplementados, há um aumento de 0,7 – 1,0 ng/mL nas concentrações séricas.(1)

Não parece haver diferença entre o consumo em jejum ou junto a refeição. (1)

Algumas evidencias demonstraram que é preferível suplementar baixas doses diariamente a suplementar uma elevada dose  uma única vez. (6,11)

Em idosos, principalmente, a suplementação de doses maiores, mensais, não é tão interessante pois não foi visto efeitos a nível esquelético. Sendo mais recomendado doses diárias ou semanais por serem mais fisiológicas. (5)

  • Pré-concepção – 400UI/dia de colecalciferol (12)
  • Gestantes/Lactantes – 600 UI / População de risco 1500-2000UI /dia** (1)
  • Dose de manutenção – 600-2000 UI/dia. (1,4)
  • Deficiência – Doses de 7.000 UI/dia ou 50.000UI/Semana – Usar por 6 a 8 semanas – doses medicamentosas. (1,4)

A SBEM não indica a suplementação generalizada de Vit. D para toda a população. (1,3)

Foi visto que doses de ate 10.000UI por dia por cinco meses não induziram sinais de toxicidade. (1) Porém, o máximo seguro  recomendado pela EFSA é de 4000UI. (8)

Obs: Por ser uma vitamina lipossolúvel, a vitamina D é absorvida juntamente com as gorduras, então em casos de má absorção, doses maiores podem ser necessárias para a normalização das concentrações de vitamina D. (1)

**Obs2: Durante a gestão é recomendado doses diárias, e não semanais, devido a uma falta de regulação da produção do bebê. (1)

Hipervitaminose:

Embora a Vit. D obtida em excesso a partir da dieta seja toxica, a exposição excessiva à luz solar não leva à intoxicação, devido à capacidade limitada de sintetizar o precursor 7-desidrocolesterol, e pelo fato de a exposição prolongada da pré-vitamina D à luz solar levar a formação de compostos inativos. (2)

Mas deve-se atentar que a exposição excessiva ao sol pode levar a um maior risco para o câncer de pele. (2)

A ingestão excessiva de Vit. D pode causar fraqueza, náuseas, perda de apetite, dor de cabeça, dores abdominais, câimbras e diarreias. (3) Ela também pode causar a hipercalcemia, com concentrações plasmáticas de Ca atingindo 2,75-4,5mmol/L. (3)

Obs: A maioria dos casos diagnosticados com hipercalcemia ingeria doses de vit. D superiores a 250mcg/dia, sendo a recomendação de 10mcg/dia. (3)

É importante notar que a hipercalcemia  persiste por meses após a descontinuidade da ingestão elevada, por causa do acumulo da vitamina no tecido adiposo e de sua liberação lenta para a circulação. (3)

Um estudo mostrou que a Hipervitaminose é rara, mas que pode acontecer em níveis abaixo de 120ng/mL (13) E não foi visto uma correlação forte entre níveis elevados de vitamina D e níveis aumentados de cálcio. (Controverso). (13)

Interação fármaco nutriente:

Algumas medicações, como antiepiléticos, corticosteroides e aquelas que reduzem a absorção de gorduras, também são relacionadas com a deficiência  em Vit. D. (3)

Os medicamentos também são capazes de aumentar a degradação da vitamina D e seus metabolitos. Dentre eles estão os anticonvulsivantes (carbamazepine, fenobarbital, hydantoin), os antiretrovirais (efavirenz, tenoforvir), antibióticos e agentes antifúngicos (isoniazid, ketoconazole). (5)

Vit. D e saúde óssea:

Estima-se que, sem a presença da vitamina D, apenas 10%-15% do cálcio ingerido seia absorvido, ao passo que na presença a vitamina, a absorção intestinal deste mineral aumenta para cerca de 30%-40%. (7)

O calcitriol (1,25(OH)2D3) formado a nível renal estimula a absorção intestinal de cálcio através da interação com seu receptor nuclear VDR presente nos enterócitos. (7)

O aumento da absorção de cálcio, gera uma inibição do PTH, diminuindo a reabsorção óssea, que teria o objetivo de normalizar a homeostase do cálcio.

A saúde óssea, aqui representada por uma melhor densidade mineral óssea (DMO) e redução do risco de quedas e fraturas osteoporóticas, de fêmur e não vertebrais, parecem ser beneficiada por concentrações séricas  de Vit. D a partir de 30ng/ml, havendo alguns estudos sugerindo que valores próximos a 36ng/mL são mais vantajosos. (1,7)

O tratamento e suplementação da deficiência de vitamina D, determinada pela sociedade brasileira de endocrinologia, se dá através do uso do colecalciferol (D3) para pacientes com osteoporose e risco de fraturas aumentado, com o objetivo de manter as concentrações séricas acima de 30 ng/mL, sendo necessárias doses diária entre 1000-2000UI. (7)

Vit. D e gestação:

Alguns estudos tem recomendado a ingestão de 10 mcg (400UI) da pré-concepção até o fim do primeiro trimestre. (12) Na Inglaterra é recomendado essa suplementação da gestação até a lactação. (12)

As concentrações de vit.  D do bebê possuem intima correlação com a da mãe. A placenta tem a capacidade de converter Vit. D em calcitriol. Ao que parece, essa produção, ao contrário do que ocorre nos túbulos renais, não possui um estrito controle, sendo dependente apenas da quantidade de substrato ofertado. Por esse motivo é mais interessante doses diárias menores ao invés de doses semanais maiores. (1)

Estudos tem recomendado a suplementação à pessoas negras, ou pessoas que não se expõe ao sol diariamente. (12)

A deficiência da Vit. D tanto no homem, quanto na mulher é associado a infertilidade. (14)

Não existe evidência suficiente para justificar a suplementação de Vit. D de forma rotineira. (15)

A deficiência de Vit. D durante o primeiro trimestre de gestação associou-se a risco elevado de desenvolver diabetes melito gestacional. (3) Além disso, tem sido visto que a inadequação das quantidades séricas de vitamina D aumentam o risco para pré-eclampsia, necessidade de cesariana, distúrbios pulmonares e/ou das vias respiratórias e das caries dentais nos filhos. (7)

Uma meta-análise reforçou a associação positiva entre a deficiência em vitamina D e o risco pra desenvolver diabetes durante a gestação e que a suplementação com Vit. D pode ser utilizada no controle do diabetes melito gestacional. (3)

Diversos estudos concluíram que os níveis séricos de Vit. D estão relacionados com o diabetes gestacional, pré-eclâmpsia, baixo peso ao nascer e vaginose bacteriana. (1)

Vit. D e atividade física:

Baixos status de vit. D é associado a 3,6x mais riscos de fraturas por estresse. (4)

Não foi constato efeitos ergogênicos com a suplementação de Vit. D. (16)

Vit. D e câncer:

A maior parte dos estudos observacionais revela que a Vit. D possui efeitos benéficos sobre o risco do desenvolvimento de câncer de cólon, mama, próstata e ovários. (3)

Concentrações de 25(OH)D menores do que 30ng/mL (75nmol/L) foram associadas a um risco aproximadamente duas vezes maior de câncer de cólon, e também maior incidência de adenomas. (3)

Homens finlandeses com concentrações séricas de 25(OH)D menores que 40 nmol/L apresentaram uma incidência 70% mais alta em relação aqueles com valores séricos maiores do que 40 nmol/L. (3)

O mecanismo para isso fundamenta-se no fato que o calcitriol exerce papel regulatório sobre genes que são envolvidos na transformação de células normais em cancerígenas, agindo no controle do ciclo celular, na apoptose, na adesão celular e na regulação da diferenciação e proliferação celular. (3,7)

Tem sido visto que indivíduos com centrações séricas abaixo de 20ng/Ml apresentam um risco cerca de 30%-50% maior de desenvolvimento de câncer de colón, mama e próstata. (7)

Foi visto que a suplementação de 2000UI/dia é capaz de atuar a redução do risco de câncer. (9)

Uma meta-analise mostrou que a suplementação de vitamina D é associada com uma redução de 16% na mortalidade do câncer. Obs: esse resultado foi visto apenas em pessoas recebendo a vitamina D3. (17)

Vit. D e diabetes:

A deficiência de Vit. D é fator de risco para a incidência e prevalência  de diabetes melito tipo 1 e 2. (3)

Um possível mecanismo direto estaria relacionado à ligação da sua forma circulante ativa à receptores nas células beta pancreáticas. (3)

Sabe-se que a secreção de insulina é um processo mediado pelo Ca; portanto alterações na regulação de seu fluxo podem ser prejudiciais à função secretória das células pancreáticas e também na ação propriamente dita da insulina. (1,3)

A vit. D pode agir diretamente sobre a ação da insulina por estimular a expressão de receptores desta, aumentando sua sensibilidade. (3,7)

No diabetes tipo 1, concentrações adequadas de Vit. D no organismo parecem reduzir o processo de destruição autoimune das células beta-pancreáticas, responsáveis pela síntese e secreção de insulina. (3) Além disso, foi visto que a suplementação na infância parece ser protetora contra o desenvolvimento do DM1. (1,7)

Outra possível relação baseia-se no fato de que essa doença é associada à inflamação sistêmica. Nesse caso a vitamina pode melhorar a sensibilidade a insulina e promover a sobrevivência das células beta pela modulação direta da geração  e dos efeitos de citocinas pró-inflamatórias, as quais em quantidades elevadas podem promover disfunções nessas células por meio da apoptose.  (1,3)

Mas não foi visto uma diminuição do risco para o DM2 com a suplementação de vitamina D.  (5)  Porém, alguns estudos tem mostrado que a suplementação de 4000UI/dia é capaz de reduzir a progressão do pré-diabetes para o diabetes. (9)

Vit. D e hipertensão:

As evidencias relacionando a Vit. D e a Hipertensão são menos conclusivas do que  as observadas no câncer ou no diabetes. (3)

Estudos epidemiológicos e observacionais apontam uma associação entre esse micronutriente e a hipertensão arterial e a aterosclerose. (3) Sugere-se que quanto maiores as concentrações da vitamina no soro, menores são os valores médios de pressão sanguínea e também a prevalência de hipertensão.  (3)

Em indivíduos obesos, hipertensos e diabéticos, constatou-se que nos quartis mais baixos de concentração sérica de Vit. D (<52nmol/L) a prevalência de fatores de risco cardiovascular foi de 20,5% em comparação com 15,1% nos quartis mais altos (>65nmol/L), isto é, houve uma diferença de 26%. (3)

Vit. D e obesidade:

A vit. D esta diretamente ligada a obesidade por mecanismos de regulação da adipogênese no processo de diferenciação dos adipócitos. (3) Baixas concentrações sanguíneas dessa vitamina estimulam a liberação de mediadores inflamatórios que contribuem para o ganho de peso. (3)

Indivíduos obesos apresentam concentrações importantes de vit. D armazenadas nos adipócitos, entretanto a circulação dessa vitamina geralmente é insuficiente, impedindo sua ação em outros tecidos. (3,7) Interpretado como um sequestro de Vit. D pelos adipócitos. (1)

A vit. D inibe a ativação de fatores de transcrição adipogênicos e o acumulo de gordura nos adipócitos durante a diferenciação celular. (3)

Em baixas concentrações de Vit. D circulante, o Ca circulante é reduzido e pode induzir ao hiperparatireoidismo secundário. (3) O aumento do PTH está relacionado ao ganho de peso vez que  há uma maior concentração de Ca intracelular nos adipócitos, aumentando a expressão da enzima ácido graxo sintase. Essa enzima acarreta aumento da deposição de lipídios nos adipócitos e redução da lipólise. (3)

A suplementação de Vit. D não apresentou efeitos na perda de peso e ainda não há segurança para o estabelecimento de doses de referência para esse grupo. (3) Isso porque indivíduos obesos são mais resistentes ao tratamento e necessitam de maiores doses dessa vitamina para atingir as concentrações ideais. (7) Porém, em ratos, foi visto que a suplementação com doses elevadas de cálcio e vitamina D reduziram o peso e a massa gorda em ratos obesos. (1)

A concentração sérica de vitamina D foi inversamente relacionada com concentrações de marcadores pró-inflamatórios (Proteína C reativa, IL-6, TNF-alfa) e com parâmetros relacionados a resistência à insulina. Mas positivamente associada com as concentrações de adiponectina. (7)

Vit. D e imunidade:

Estudos recentes sugerem que a vitamina D pode modular o sistema imune inato. A hipovitaminose D pode apresentar um impacto negativo nas doenças infecciosas. (1)

Tem sido proposto diversos mecanismos pelos quais a vitamina D é capaz de atuar impedindo infecções, sendo três mecanismos principais: através da melhora da barreira física, da imunidade celular natural e pela imunidade adaptativa. (9)

Foi visto que a vitamina D é capaz de manter as tight junctions, as gap junctions, e as adhrens junctions. (9)

Além disso, foi visto que o tratamento de linfócitos T com a  1,25(OH)2D3 inibe sua ativação e proliferação, ao mesmo tempo em que altera o perfil de expressão de citocinas dessas células, bem como reduz a síntese de interferon-γ e de IL12 a partir de linfócitos TCD4+ (3)

Porém, os efeitos mais pronunciados da vitamina D sobre as células do sistema imune são sobre as células dendríticas, cujo tratamento resulta em inibição da maturação e da diferenciação dessas células, ao mesmo tempo em que promove redução da expressão de moléculas coestimulatórias. (3)

Além disso, fatores inflamatórios derivados de patógenos, como o LPS, ou mediadores inflamatórios produzidos pelo sistema imune, também estimulam a atividade da enzima 1α-hidroxilase, o que também contribui para o aumento da produção de 1,25(OH)2D3. (3)

Na vigência de um quadro inflamatório crônico, a concentração sanguínea da Vit. D pode aumentar de modo significativo.

Efeito anti-inflamatório:

A vitamina D é capaz de reduzir a produção de citocinas pró-inflamatórias como a TNF-α e interferon-γ. (9) A administração de vitamina D foi capaz de reduzir a expressão dessas citocinas e aumentar a expressão de citocinas anti-inflamatórias pelos macrófagos. (9)

Vit. D e psoríase:

A forma ativa da vitamina D é um potente inibidor da proliferação dos queratinócitos e pode ser usada com segurança em doenças hiper proliferativas não malignas da pele como a psoríase. (1)

A aplicação de 1,25(OH)2D3 ou de seu análogo calcipotriol pode ser usada como um tratamento de primeira linha para a psoríase. (1)

Vit. D e idosos:

Em idosos existe uma maior chance de deficiência devido a menor capacidade de síntese da Vit. D pela pele, além de uma menor absorção intestinal e menor ativação renal da forma inativa para a ativa. (6)

Estudos epidemiológicos demonstraram que a baixa ingestão de vitamina D esta associada com um declínio cognitivo, um aumento no risco da doença de Alzheimer e depressão. (1) O mecanismo proposto inclui a formação e agregação B-amiloide, uma desregulação do sistema gabaérgicos e um aumento no influxo de cálcio nos neurônios. (1)

A presença do receptor de vitamina D (VDR) foi demonstrada em células precursoras do musculo esquelético, e tem sido visto que com a idade, o número de receptores tende a cair. (5,7) Alguns estudos demonstraram que a suplementação de vitamina D foi capaz de aumentar esses receptores nas fibras musculares do tipo 2. (5,7)

Estudos semelhantes demonstraram que a queda nos níveis desses receptores pode estar relacionado a uma maior atrofia muscular. (5)

Um estudo brasileiro mostrou um aumento significativo na força de pacientes idosos, apenas com a suplementação de colecalciferol, sem a presença de qualquer atividade física regular. (5)

Vit. D e doenças autoimunes:

Existem diversos estudos relacionando os benefícios da vitamina D e da exposição solar para a redução do risco de doenças autoimunes, como esclerose múltipla, artrite reumatoide, lúpus eritematosos sistêmico, doença de chron e diabetes tipo 1. (7)

Tem sido proposto que a quantidade de vitamina D no ambiente (alimentação e exposição solar) afeta o desenvolvimento e a função de linfócitos T e, consequentemente, modula a função imune. (3)

Destaca-se que indivíduos geneticamente predispostos – que não mantêm concentrações adequadas de vitamina D ou que possuam polimorfismos em importantes genes relacionados ao metabolismo, catabolismo ou função da vitamina D – tem um aumento na probabilidade de desenvolver doenças inflamatórias intestinais e esclerose múltipla. (3)

Vit. D e esclerose múltipla:

A suplementação tem sido considerada terapia complementar na EM, contudo, é necessária atenção no estabelecimento das concentrações ótimas de vitamina D que podem ser usadas para efeitos clínicos e imunomoduladores desejados nesses pacientes, bem como cuidados nutricionais adequados para evitar reações adversas, como a hipercalemia. (7)

Vit. D e lúpus eritematoso sistêmico:

A suplementação de vitamina no LES parece contribuir com uma redução significativa na positividade de antígenos, que é um marcador de manifestações clinicas. (7)

Vit. D e artrite reumatoide:

Parece haver uma tendencia de redução da atividade da doença reumática com a utilização de vitamina D na AR, com possível redução da recorrência.

Vit. D e infecções respiratórias:

Estudos tem demonstrando que a vitamina D apesar de não diminuir o risco para infecções respiratórias, sua suplementação foi capaz de diminuir o tempo de duração dos sintomas. (11)

Foi visto que concentrações séricas normais  ficam entre 15-50ng/ml e que valores superiores a isso não exercem uma proteção a mais. (11)

Vit. D e audição:

Pode gerar efeitos na audição, ocasionando uma perda auditiva devido ao metabolismo do cálcio (mais no resumo sobre audição). (14)

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