Alergia alimentar – Fisiopatologia, tratamento, terapia nutricional, prevenção…

Ilustração de uma alergia alimentar

Última atualização :28/04/2021

Diagnóstico:

O diagnóstico da alergia alimentar baseia-se em informações advindas da história clínica e do exame físico e conta com o auxílio de alguns métodos laboratoriais que podem ser uteis em determinadas situações. (1)

O padrão outro de diagnostico é o teste de provação duplo-cego e controlado por placebo. Porém tem sua aplicação limitada na prática clínica em razão do tempo, do custo e da dificuldade prática de realização de tal. (1,2)

Não é possível realizar o diagnóstico de aa apenas com base nos testes bioquímicos. (1,2)

Alterações bioquímicas:

Os exames laboratoriais disponíveis são uteis, especialmente nos casos de alergias mediadas por ige ou de caráter misto. (1)

Objetivo do tratamento:

O tratamento padrão é a restrição completa das proteínas alimentares responsáveis pela aa. (1)

Mas tem surgido alternativas para aumentar a “resistência” a esses alérgenos, e diminuir a resposta imune gerada por eles. (2)

Os estudos relacionados a essa nova abordagem expõe os participantes a pequenas doses do alérgeno, e vão de forma gradativa aumentando o contato ao longo de meses. (2) Dessa forma, o sistema imune se adapta a exposição, e a probabilidade de uma reação alérgica diminui. (2) Esse tipo de tratamento é chamado de dessensibilização. (2)

Mas ainda não há como saber se a dessensibilização é temporária ou não. (2) Então é recomendado que o paciente continue consumido o alimento. (2)

Tratamento médico:

 farmacologia:

Não há evidencia de que o uso prolongado de qualquer tipo de droga possa promover a dessensibilização do paciente com alergia. (1)

Adrenalina:

É utilizada em casos graves, risco de vida.

A adrenalina pode reverter o edema, urticaria, broncoespasmo, a hipotensão e sintomas gastrointestinais em minutos. (2)

Quanto mais rápido a utilização de adrenalina (até 6 minutos) melhor será seu efeito, prevenindo de choques anafiláticos. (2)

Corticoides:

Utilizado para diminuir a reação imune. (2)

Anti-histamínicos:

Os medicamentos atualmente disponíveis apenas controlam os sintomas, porém eles não atuam na desordem imunológica. (2)

Os anti-histamínicos são preconizados para casos de reações alérgicas agudas, em geral mediadas por IgE. (1)

Terapia nutricional:

Resumo:

  • Suspender o consumo de alimentos alergênicos. (Quando já diagnosticado a alergia)
  • Alimentos suspeitos, deve-se restringi-los entre 2 e 8 semanas até confirmação.
  • Ajustar nutrientes devido a restrição de determinados alimentos

Suplementação nutricional:

  •  Vitamina D

Orientações nutricionais:

  • Obrigatoriedade da leitura dos rótulos
  • Investigação das receitas dos alimentos consumidos
  • Conhecimento de palavras chaves importantes
  • Em crianças pequenas, incentivar o consumo de tudo, visando prevenir o desenvolvimento da alergia.

Alergias na infância:

Leite de vaca, ovos, trigo, e soja tendem a sumir com o passar dos anos, afetando um maior número de crianças, mas desaparecendo depois. (2)

Amendoim, nozes, e frutos do mar já são alergias que tendem a durar para a vida. (2)

Os guidelines atuais não recomendam que as crianças evitem determinados alimentos visando “prevenir” a alergia. O ideal é que elas tenham o contato com o alérgeno. (2)

Vitamina D:

(+Sobre a Vit. D)

Estudos recentes têm demonstrado que níveis séricos altos de vitamina D são inversamente associados com o risco de alergia alimentar. (2)

A vitamina D é um imunomodulador, sua deficiência não interfere apenas na tolerância, mas pode aumentar a susceptibilidade de infecções gastrointestinais através do comprometimento da barreira intestinal,  além de aumentar o contato entre alérgeno e células imunes. (2)

Foi visto que a incidência de alergia a ovos ou ao amendoim foi 3x maior em crianças com deficiência de vitamina D, e 6x maior em crianças já sensibilizadas. (2)

Outros tratamentos:

Fisiopatologia:

Definida como uma doença consequente a uma resposta imune exacerbada que ocorre após a ingestão de determinada proteína alimentar. (1,2)

Fatores de risco:

  •  idade

A imaturidade da barreira gastrointestinal e do sistema imune no lactente é fator preeminente da maior prevalência das aa nessa faixa etária se comparado aos adultos. (1)

Não há evidência de que a introdução tardia (após o primeiro ano de vida) de alimentos considerados “mais alergênicos”, como ovo, trigo e peixe, entre outros, aumente o risco de desenvolvimento de alergias, mesmo em crianças com risco familiar. (1)

De forma geral, alimentos que desencadearem alergias após a fase adulta, dificilmente serão tolerados novamente. (1)

Fisiopatologia:

Os peptídeos (pedaços de proteínas) relativamente grandes podem ser absorvidos em sua forma intacta, seja por captação pelas células epiteliais da mucosa (transcelular) ou pela sua passagem entre as células epiteliais (paracelular). (3)

Muitos peptídeos são grandes o suficiente para estimular a formação de anticorpos – constituindo a base das reações alérgicas aos alimentos. (3)

As reações clínicas podem ser categorizadas em:

  • Mediadas por imunoglobulina e IgE (tipo1)
  • Hipersensibilidade por citotoxicidade (tipo 2)
  • Hipersensibilidade por imunocomplexos (tipo3)
  • Hipersensibilidade celular (tipo 4)

As hipersensibilidades do tipo 1 e 4 respondem por quase 100% das alergias alimentares. (1)

O contato de IgE especificas, encontradas nas membranas de mastócitos e basófilos, com as proteínas-alvo dos alimentos circulantes, resulta em ruptura das membranas dessas células e em liberação de mediadores e citocinas inflamatórias. (1)

Geralmente as aa mediadas por IgE ocorrem de forma rápida após a ingestão da proteína, levando segundos até cerca de 2h. (1) Sendo considerada uma alergia  de alto risco. (2)

Na hipersensibilidade tipo 4, os linfócitos são os responsáveis pela liberação dos mediadores inflamatórios e as reações tem caráter mais tardio, sendo os sintomas gastrointestinais os maiores exemplos dessas reações. (1)

Geralmente, as reações adversas a alimentos podem incluir sintomas advindos de toxinas alimentares ou de alterações fisiológicas e funcionais que comprometem o sistema de digestão do alimento ingerido. (1)

Efeitos colaterais:

Manifestações gastrointestinais:

Vômitos, náuseas, dor abdominal, suor, coceira, formigamento na boca (2)

Efeitos respiratório:

Respiração ofegante, inflamação das vias aéreas. (2)

Manifestações cutâneas:

Vermelhidão, urticaria, angioedema e coceira (2)

Manifestações sistêmicas:

Hipotensão, hipotermia. (2)

Alérgenos alimentares:

Alérgenos alimentares são os componentes específicos dos alimentos (tipicamente proteínas), capazes de estimular o sistema imunológico a produzir reações exacerbadas, o que resulta em sintomas indesejáveis. (1)

Apesar da enorme diversidade da alimentação humana, um grupo seleto de alimentos responde por cerca de 90% das aa: (1)

  • Leite de vaca
  • Ovos
  • Soja
  • Trigo
  • Amendoim
  • Castanhas
  • Peixes
  • Frutos do mar

O leite por ser o primeiro alimento introduzido na alimentação do lactente, é o principal alimento responsável pelas aa nos primeiros dois anos de vida. (1)

O ovo é o alimento mais relacionado com a presença de doenças atópicas do trato respiratório na fase pré-escolar. (1)

O amendoim devido a suas características peculiares de suas proteínas (alto peso molecular e termorresistência) conferem a essa leguminosa grande potencial  alergênico. (1)

Alergia e intolerância:

(+Sobre Alergias alimentares)

Alergia alimentar é diferente da intolerância alimentar pois a intolerância não se inicia com uma desregulação do sistema imune. (2) Exemplo, a intolerância a lactose se da por outros fatores como má absorção ou deficiência de lactase, fatores esses que não são relacionados ao sistema imune. (2)

Prevenção:

Existem algumas evidencias sugerindo que a exposição “precoce” a potenciais alérgenos talvez diminua  o risco do desenvolvimento de alergias. (2)

Ex: O consumo materno de alérgenos comuns como, amendoins, nozes, leite e trigo durante a gravidez  talvez reduza o risco de alergias nas crianças. (2)

Similarmente, a introdução alimentar diversa pode evitar o desenvolvimento de alergias. (2)

E apesar de não haver ainda um consenso sobre quando expor, e nem a quantidade,  os guidelines atuais já não recomendam evitar os alérgenos alimentares. Ao invés disso, eles recomendam que as mães sigam a dieta normal durante a gravidez e a amamentação.(2)

Sensibilização a um alérgeno:

Aquelas pessoas que já foram expostas ao alérgeno e já tiveram uma resposta imune anteriormente,  tendem a apresentar uma resposta imune muito mais rápida quando em contato com o alérgeno novamente. (2)

Parto normal / Cesárea:

Diversos estudo tem avaliado se o tipo de parto pode influenciar no desenvolvimento de alergias, através da microbiota (pelo contato com a microbiota vaginal, que seria benéfico, ou não) passada de mãe para filho. (2)

Foi observado uma associação com cesarianas e o maior desenvolvimento de alergias. (2)

Referências bibliográficas:

1- Cominetti C, Cozzolino S. Bases bioquímicas e fisiológicas da nutrição nas diferentes fases da vida, na saude e na doença. 2a. Manole; 2020. 1369 p.

2- Yu W, Freeland DMH, Nadeau KC. Food allergy: Immune mechanisms, diagnosis and immunotherapy. Nat Rev Immunol [Internet]. 2016;16(12):751–65. Available from: http://dx.doi.org/10.1038/nri.2016.111

3- Rodwell V w., Bender DA, Bothan KM, Kennelly PJ, Weil PA. Bioquímica ilustrada de Harper. 30a. ArtMed; 2017. 817 p.