Cálcio – Metabolismo, biodisponibilidade, recomendações nutricionais, suplementação…

Última Atualização: 01/08/2021

Além de ser utilizado na produção óssea, o cálcio também está envolvido em diversos processos metabólicos, incluindo a contração muscular. (1)

Biodisponibilidade e metabolismo:

Diversas fontes desse mineral apresentam fatores antinutricionais, como fitatos e, em especial oxalatos que reduzem de maneira significativa sua absorção intestinal.  O ácido fítico (inositol-hexafosfato) nos cereais liga-se ao cálcio no lúmen intestinal, impedindo a sua absorção. Que representa um problema principalmente entre os indivíduos que consomem grandes quantidades de produtos à base de trigo integral não fermentado.  (2)

Alguns nutrientes que afetam negativamente a absorção são o magnésio e o fosfato, no entanto essa interação não é significativa. O fosfato parece aumentar a secreção endógena intestinal de cálcio, que se perde nas fezes, mas ao mesmo tempo reduz a excreção urinaria do mesmo, o que evita um balanço negativo do mineral.

Por outro lado, o nutriente mais conhecido por afetar positivamente a absorção intestinal de cálcio é a Vit. D3 (forma ativa dessa vitamina). De modo que o status ideal de Vit. D que garante a máxima absorção de cálcio são concentrações séricas de 25-hidroxivitamina D3 (25OHD3) alcançam 32 ng/mL (80 nmol/L).

A síntese  da proteína intracelular de ligação do cálcio, a calbindina, necessária para a absorção do cálcio, é induzida pela Vit. D, que também atua recrutando transportadores de cálcio para a superfície celular, aumentando rapidamente a absorção de cálcio. (2)

E além disso, tem se estudado a possibilidade de que através de pre e probióticos o cálcio possa ser melhor aproveitado na dieta. (3) Os frutanos (inulina e frutooligossacarídeos) são prebióticos que podem beneficiar a absorção e a biodisponibilidade do cálcio. (3)

A fermentação de carboidratos no intestino grosso resulta na produção de ácidos graxos de cadeia curta, os quais constituem a principal razão para o aumento da absorção de cálcio, pois reduzem o pH do conteúdo luminal, melhorando a solubilidade de minerais, e sua consequente absorção. (3)

Outro ponto é que os prebióticos podem agir diretamente nas vilosidades intestinais estimulando seu crescimento, o número de células por cripta, o fluxo venoso e o transporte passivo de cálcio, ou em nível celular estimulando a expressão da calbinidina, que é a proteína responsável pelo transporte ativo do cálcio. (3)

Alguns fármacos como os inibidores da bomba de prótons podem reduzir a absorção de alguns sais de cálcio, em especial o carbonato. (4)

Outro problema que atrapalha a absorção do cálcio são as altas concentrações de ácidos graxos no lúmen intestinal, geralmente devido a diminuição da absorção de gordura de gorduras, que formam sais de cálcio insolúveis. (2)

Mas além da absorção, a excreção também deve ser considerada, de modo que fatores como o sódio, e o álcool parecem afetar negativamente o balanço de cálcio, assim como a cafeína, embora o efeito desta seja reduzido. (4)

A maior parte deste mineral encontra-se na forma de fosfato de cálcio. (4)

Enquanto nos dentes esse mineral é pouco mobilizado, no ossos este mineral é mobilizado e substituído a uma taxa de 0,5 g/dia. (4)

Avalição do status de cálcio:

Avaliar o status de cálcio não é simples; as concentrações de cálcio no plasma são estreitamente reguladas e, desse modo, poderão manter-se estáveis mesmo que exista a deficiência desse mineral. (4)

Quando o cálcio ionizado plasmático se reduz, um receptor sensor de cálcio presente na paratireoide, aumenta a síntese e liberação do paratormônio (PTH), aumentando a reabsorção tubular renal de cálcio e a síntese da forma ativa da vitamina D3, que ira aumentar a absorção intestinal de cálcio. (4)

Além disso, tanto o PTH quanto o calcitriol (Vit. D3) irão aumentar a reabsorção óssea, mantendo as concentrações plasmáticas de cálcio estáveis.  No entanto existem alguns fatores que poderão levar à hipocalcemia, como algumas doenças (hipoparatireoidismo, insuficiência renal crônica),  fármacos (bifosfonatos), deficiência grave de Vit. D e hipomagnesemia. No entanto, em relação a hipomagnesemia,  a deficiência de magnésio reduz a liberação de PTH e causa  resistência deste  em seus órgãos alvos, o que pode gerar hipocalcemia mesmo em condições normais. (4)

Para avaliar o status de cálcio, além do cálcio plasmático, sendo preferível o cálcio ionizado, devem ser analisados o cálcio urinário de 24h, a 25OHD, e o PTH. (4)

Não há um medidor especifico para cálcio; (5)

Deficiência de cálcio:

Sinais e sintomas:

  • Câimbra
  • Formigamentos
  • Queda de cabelo
  • Unhas frágeis
  • Eczema
  • Descamação da pele
  • Irritabilidades
  • Agitação
  • Humor lábil
  • Taquicardia
  • Desequilíbrio acido base
  • Insônia
  • Perda de memora
  • Convulsões
  • Infertilidade

Pacientes com arritmias podem apresentar a deficiência de cálcio e magnésio, pois ambos os nutrientes são essenciais na contração muscular (coração). (PosVp)

A deficiência de cálcio através da diminuição do LH pode gerar a infertilidade.

Considerações cálcio e exercício:

O exercício parece aumentar a perda de cálcio pelo suor. Dependendo da taxa de sudorese que, por sua vez é influenciada pelas condições atmosféricas e pela intensidade e duração do treino, as necessidades de cálcio podem aumentar significativamente. (4)

A calcitonina e a calcemia podem não ser afetadas pelo exercício crônico. Já o PTH apesar de não aumentar devido ao exercício crônico, pode aumentar de forma aguda quando o exercício atinge determinada intensidade e duração. Aumentos intermitentes desse hormônio parece ter efeito anabólico no tecido ósseo. O aumento transitório do PTH faz  parte  da resposta de adaptação ao treino, mas, em termos de saúde óssea, a ingestão adequada de cálcio e a baixa concentração de PTH em repouso combinada com elevação aguda da secreção deste parece ser o ideal. (4)

Uma baixa ingestão de cálcio em adolescentes assume especial importância, pois pode afetar negativamente o ganho de massa óssea, aumentando o risco de fraturas. (2) Em associação a baixa densidade óssea e a redução da ingestão energética, também se associam alterações da função menstrual, caracterizando a “tríade da mulher atleta”. (4)

Recomendações nutricionais:

RDA Homens: 1000mg/dia

RDA Mulheres: 1000mg/dia

UL: 2,5g/dia

Fontes: Gergelin, leite e seus derivados (queijos e iogurtes), farinha de soja, sementes de sésamo, chia,  linhaça,  couve-galega, amêndoas, avelãs, castanha do brasil, agrião, espinafre, quiabo, taioba, tofu. (4)

É consenso que os efeitos benéficos do cálcio ocorrem em associação com a ingestão ou suplementação da vitamina D (3)

A RDA leva em consideração em seus valores todos os fatores que podem diminuir a absorção e a utilização do cálcio pelo organismo. Nesse sentido, a necessidade real do cálcio seria de 400-500mg/dia (Pós VP)

Suplementação nutricional:

Em populações suscetíveis a osteoporose a suplementação de cálcio pode ser benéfica. (6)

Não foram encontrados efeitos ergogênicos na suplementação de cálcio. (6)

Pensando na suplementação de cálcio e em sua absorção, o citrato de cálcio é forma que apresenta maior absorção no organismo, sendo absorvido 98% do cálcio ingerido. Porém, devido a seu peso molecular maior ele pode gerar alguns desconfortos gastrointestinais. (Lancha Jr.)

Se necessário a suplementação de cálcio, o carbonato de cálcio e o citrato de cálcio apresentam uma boa biodisponibilidade, embora o citrato malato de cálcio pareça ser superior. (4)

É de suma importância não exceder o nível máximo de ingestão tolerável, que foi estabelecido pelo IOM de 2,5g/dia: (4)

Calcio Quelato:

possui uma importante função na regulação de muitos processos fisiológicos, na integridade das células nervosas e musculares, na função cardíaca e na formação do osso. Age como co-fator enzimático e participa nos processos de secreção e excreção das glândulas endócrinas e exócrinas, na liberação de neurotransmissores e na manutenção da permeabilidade de membrana, da função renal e da respiração. Dosagem usual: até 1,5g ao dia. (pós)

Calcio e esportes:

É recomendada a ingestão de 1500 mg/dia de cálcio, junto com 1500-2000 UI/dia de Vit. D, otimizando a saúde óssea de atletas com baixa ingesta calórica, ou com uma disfunção menstrual. (5,7)

Fisiologia:

É um dos cátions mais prevalentes no corpo humano, mais de 99% desse mineral encontra-se nos ossos e dentes e o restante nas células, no fluido extracelular e no plasma. (4)

É o principal constituinte do tecido ósseo.  (3) O cálcio apresenta funções primordiais na regulação de eventos fisiológicos como a coagulação sanguínea, secreção de hormônios como a insulina, contração muscular, sendo ainda o nutriente essencial para a mineralização, tanto de ossos como de dente. (3)

O cálcio pode afetar a liberação de neurotransmissores, contração muscular,a secreção de hormônios, a ativação de enzimas, a permeabilidade das proteínas da membrana celular, o movimento de substancias ao longo da célula, a comunicação intercelular, a síntese de DNA, o movimento de cromossomos,a divisão celular e a reprodução. (4)

É um mineral fundamental no impulso nervoso, na contração muscular entre outros. (pós Vp) Não existe contração muscular sem cálcio, magnésio, sódio e potássio. (pos Vp)

Referências bibliográficas:

1- Ross AC, Caballero B, Cousins RJ, Tucker KL, Ziegler TR. Nutrição Moderna de Shills na Saúde e na Doença. 11a. São Paulo: Manole; 2016. 1642 p.

2- Rodwell V w., Bender DA, Bothan KM, Kennelly PJ, Weil PA. Bioquímica ilustrada de Harper. 30a. ArtMed; 2017. 817 p.

3- Philippi ST, Pimentel CV de MB, Elias MF. Alimentos Funcionais e compostos bioativos. 1a. São Paulo: Manole; 2019. 893 p.

4- Lancha Jr. AH, Rogeri PS, Pereira-Lancha LO. Suplementação Nutricional no Esporte 2a Ed. 2a. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2019. 266 p.

5- Maughan RJ, Burke LM, Dvorak J, Larson-Meyer DE, Peeling P, Phillips SM, et al. IOC consensus statement: Dietary supplements and the high-performance athlete. Br J Sports Med. 2018;52(7):439–55.

6- Kerksick CM, Wilborn CD, Roberts MD, Smith-Ryan A, Kleiner SM, Jäger R, et al. ISSN exercise & sports nutrition review update: Research & recommendKerksick, C. M., Wilborn, C. D., Roberts, M. D., Smith-Ryan, A., Kleiner, S. M., Jäger, R., … Kreider, R. B. (2018). ISSN exercise & sports nutrition review update: Research & recommendat. J Int Soc Sports Nutr. 2018;15(1):1–57.

7- Communications S. Nutrition and Athletic Performance. Med Sci Sports Exerc. 2016;48(3):543–68.