Enxaqueca – Fisiologia, tratamento, terapia nutricional, suplementação…

Última Atualização: 01/07/2020

A enxaqueca é uma das principais desordens incapacitantes  conhecidas pelo homem. (1)

Diagnóstico:

ICHD-3 beta especifica que o paciente deve apresentar pelo menos 15 de dor de cabeça no mês, com sintomas associados em pelo menos 8 desses, sendo que o uso de medicamentos pode existir em conjunto com a enxaqueca crônica. (1)

A cefaleia deve ser pulsante, episódica e extremamente intensa podendo  durar de 4 a 72horas.(2)  Um histórico de náusea intercorrente, vomito, fotofobia e auras visuais ou olfatórias deve estar presente. (2,3)

Alterações bioquímicas:

  • Magnésio total sérico ou plasmático – VR: < 0,85mmol/L  (4)

Objetivo do tratamento:

Um manejo efetivo da enxaqueca requer reconhecer e eliminar fatores capazes de exacerbar esses quadros, além de personalizar um tratamento preventivo. (1)

Tratamento médico:

Depende da frequência das crises e da presença de outras comorbidades. (3)

Farmacologia:

Uso preventivo:

Beta bloqueadores, antidepressivos tricíclicos, anticonvulsivantes incluindo topiramato,  divalproex de sódio, toxina botulínica, e flunarizina são o tratamento padrão de prevenção a enxaqueca. (1)

A escolha da terapia preventiva é baseada na tolerância e nas comorbidades apresentadas.(1)

Uso agudo:

– AINE são frequentemente utilizados como primeira opção. (1,3)

– Simpatomiméticos e antagonistas de serotonina como o sumatriptan. (1,3)

– A profilaxia pode incluir antagonistas de canais de cálcio, bloqueadores β-adrenérgicos e antagonistas de serotonina. (3)

A administração da droga deve ocorrer o quanto antes for possível visando uma melhor otimização do tempo e eficácia da droga. (1)

Não existe contraindicações no uso de triptan em pacientes com enxaqueca c/ áurea. (1)

É comum o uso abusivo de medicamentos, sendo que muitas vezes o washout do medicamento gera a dor de cabeça. (1) Com isso, em media, 50% das pessoas com esse uso abusivo, após o “desmame” do medicamento passam a apresentar apenas episódios esporádicos. (1)

Terapia nutricional:

Resumo:

  • Avaliar consumo de cafeína, limitar a 200mg /dia consumido preferencialmente através do café, e manter o consumo constante durante os dias. (2)
  • Ingestão de líquidos (3)
  • Ajustar a ingestão de Mg, B2 (3,5,6)

Suplementação nutricional:

  • Coenzima Q10
  • Citrato/Lactato/Cloreto de Magnésio – Max. 350 mg/dia dosagem (6)
    • Capsulas Gastro-resistentes e adicionadas de Vit. B6

Orientações nutricionais:

  • Avaliar consumo de alimentos chaves possivelmente desencadeadores.
  • Manter constante o consumo de cafeína, inclusive aos finais de semana. Se necessário, fazer a retirada de forma gradual.

Eliminação dietética:

Não há estudos de boa qualidade que suportem qualquer eliminação dietética especifica. (1)

Cafeína:

(+Sobre cafeína)

Nenhum estudo foi feito com a cafeína visando provocar a enxaqueca, porém esse efeito já foi observado. (2)

Foi visto que o consumo de cafeína reduz o fluxo sanguíneo cerebral pela indução da vasoconstrição no sistema nervoso central. O que é benéfico, porém, a retirada da cafeína aumenta o fluxo, piorando o quadro de enxaqueca.  (2)

O limite recomendado até o momento e de 200mg/dia de cafeína, sendo preferível essa ingestão através do café, cacau, ou chás devido a seus outros benefícios a saúde.

O consumo excessivo  crônico da cafeína foi capaz de “cronificar” a enxaqueca. Porém a diminuição do consumo deve ser realizada de forma lenta.  (2)

O consumo excessivo de cafeína pode aumentar a excreção de magnésio, diminuindo seus níveis séricos e piorando o quadro. (2)

O consumo de cafeína junto a analgésico foi capaz de acelerar  a absorção do medicamento através da diminuição do pH gástrico, além do aumento da motilidade. (2)

A cafeína é capaz de modular a microbiota intestinal, gerando benefícios no tratamento. (2)

Hidratação:

A desidratação pode ser um fator instigador. (3)

Coenzima q10:

(+ Sobre CoQ10)

A riboflavina e a coenzima Q10 foram sugeridos como opções viáveis devido a sua função no metabolismo energético. (3)

Alimentos desencadeadores:

Alimentos chaves podem desencadear episódios, mas isso deve ser testado a cada paciente. (3)

Aminas biogênicas:

Alguns estudos mostraram que as aminas biogênicas (tiramina e feniletilamina) podem desencadear a enxaqueca, de modo que sua retirada pode ser benéfica. A tiramina é encontrada no vinho tinto, e a feniletilamina no chocolate, porém é controverso. (5)

Magnésio:

(+Sobre Magnésio)

RDA: Homens 18-70 anos – 420mg/dia

RDA: Mulheres 18-70 anos – 320mg/dia

O magnésio se mostrou eficaz no tratamento. (3)

O Mg esta envolvido na fisiopatologia da enxaqueca pois sua deficiência  esta relacionada a depressão da disseminação cortical, agregação de plaquetas, liberação de neurotransmissores e vasocontrição. (6)

O Mg age no bloqueio de receptores de N-metil-D aspartato – NMDA, envolvidos na alterações neuroplásticas. Sua deficiência pode facilitar a ativação de NMDA e consequentemente aumentar a ação desse receptor na depressão cortical alastrante – CSD, contribuindo para mais episódios de enxaqueca. (6)

Além disso, a redução do Mg gera também uma diminuição nos níveis de oxido nítrico – NO, comprometendo a regulação do fluxo sanguíneo, tanto na parte intra como extracraniana. (6)

Ele também esta relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), envolvido na dilatação dos vasos sanguíneos intracranianos.  O Mg é capaz de diminuir os níveis circulantes de CGRP, evitando assim novos episódios. (6)

Além disso, ele é importante para inibir a vasoconstrição induzida pela serotonina durante a enxaqueca. (6)

A suplementação de magnésio reduziu em 75% os episódios de enxaquecas diárias, além de ter sido eficiente na diminuição da duração, e diminuição dos sintomas relacionados como vômitos, náuseas e fotofobia. (6)

A suplementação em pessoas que apresentam episódios de enxaqueca parece ser uma medida profilática eficaz. (6)

Vit. B2:

(+Sobre Vit. B2)

A vit. B2 parece ter papel no tratamento de enxaquecas. (5)

Outros tratamentos:

Fisiopatologia:

Fatores de risco:

  • Genética
  • Estilo de vida

Fisiopatologia:

Definida clinicamente como uma dor episódica, intensa e forte na cabeça, que dura de 4 a 72h. Ela pode ser acompanhada de náusea e é classicamente associada a um pródromo de distúrbios visuais ou de percepção olfatória e gustatória incomum. (3)

As náuseas e vômitos decorrem da excitação do núcleo do trato solitário. (7)

Acredita-se que a enxaqueca tenha origem vascular e segue um histórico familiar. A teoria principal propõe que os vasos sanguíneos  durais se dilatam e o fluxo sanguíneo pulsátil que flui através desses vasos se distende e irriga a dura-mater, que é altamente sensível à dor. (3)

A enxaqueca não é caracterizada pela presença de cefaleia, mas pelo estado de susceptibilidade constante que torna o enxaquecoso permanentemente sujeito a uma crise, mediante fatores desencadeantes. (7)

Um sintoma comum é a disfunção cognitiva, relacionada a disrupção da função de conectividade cerebral. (1)

Fases:

Um episodio de enxaqueca pode ser dividido em fases, baseando-se no tempo ate a enxaqueca: (1)

  • Premonitória (precede a dor de cabeça)
  • Aurea (precede imediatamente ou acompanha a dor de cabeça)
  • Dor de cabeça
  • Pós dor de cabeça

Na fase premonitória, vários sintomas podem ocorrer, como a poliúria, mudanças no humor, irritabilidade, sensibilidade a luz, dor no pescoço, dificuldade para concentrar entre outros. (1) Geralmente esse fase acontece horas antes da dor de cabeça. (1)

Alguns estudos relataram mudanças na atividade e na conectividade do hipotálamo horas antes da dor de cabeça, o que explicaria a poliúria, a mudança do humor e a mudança no apetite. (1)

A caracterização da fase premonitória prove a oportunidade de tratar a enxaqueca em seus primeiros sinais. (1)

Genética:

Ainda não foram identificados alterações genéticas nos pacientes com efeitos importantes na enxaqueca. (1)

Na maioria dos casos a enxaqueca além de envolver diversos genes, ainda sofre influencia de fatores epigenéticos. (1)

Na enxaqueca, a alteração genética de um canal de cálcio cerebral especifico provoca um estado de hiper excitabilidade, com metabolismo cerebral anormal, que torna o SNC mais susceptível a estímulos externos (como luminosos e alimentares) e internos (estresse emocional, por exemplo). (7)

Referências bibliográficas:

1- Charles A. The pathophysiology of migraine: implications for clinical management. Lancet Neurol [Internet]. 2018;17(2):174–82. Available from: http://dx.doi.org/10.1016/S1474-4422(17)30435-0

2- Nowaczewska M, Wiciński M, Kaźmierczak W. The Ambiguous Role of Caffeine in Migraine Headache : From Trigger to Treatment. 2020;

3- Mahan LK, Escott-Stump S, Raymond JL. Krause Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 13a. Rio de Janeiro: Elsevier; 2012. 1227 p.

4- Lancha Jr. AH, Rogeri PS, Pereira-Lancha LO. Suplementação Nutricional no Esporte 2a Ed. 2a. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2019. 266 p.

5- Ross AC, Caballero B, Cousins RJ, Tucker KL, Ziegler TR. Nutrição Moderna de Shills na Saúde e na Doença. 11a. São Paulo: Manole; 2016. 1642 p.

6- Cozzolino S. Biodisponibilidade de Nutrientes. 6a. São Paulo: Manole; 2020. 934 p.

7- Vincent MB. Fisiopatologia da enxaqueca. Arq Neuropsiquiatr. 1998;56(4):841–51.